Psicologia

Homem Almar Parte 4 – Desenvolvimento de Consciência em Espiral: Primeira Camada

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Existem várias teorias e cartografias que descrevem o desenvolvimento de consciência e variam em nomenclatura, quantidades diferentes de níveis, pesquisadores, cultura, etc. Em sua obra, Wilber reconhece a importante contribuição dessas diversas cartografias como fontes de referência para compreender o desenvolvimento da consciência. Em seus estudos ele elege a cartografia de Graves por ela apresentar oito estágios de desenvolvimento, um número considerado por Wilber como ideal para analisar o desenvolvimento da consciência com profundidade sem perder a objetividade.

Clare Graves foi um pesquisador que passou os últimos 30 anos de sua vida dedicados ao estudo do desenvolvimento da consciência. Graves apresenta oito principais níveis de consciência humana e seu modelo foi verificado e validado em países do Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo. Mais de 50.000 pessoas foram testadas no mundo inteiro e não foram encontradas exceções importantes ao esquema geral.

O trabalho de Graves foi refinado por Don Beck e Christopher Cowan, seus discípulos, numa abordagem chamada de Dinâmica da Espiral (Spiral Dynamics). Os oito estágios continuaram como a base do modelo e são chamados de “memes”. Cada meme representa um estágio básico de desenvolvimento que pode ser expresso em atividades .

Eles escolheram a forma de uma espiral para ilustrar seu modelo porque ela sai de uma lógica linear de desenvolvimento, sendo uma metáfora para mostrar que os níveis são fluidos e fluentes. Os seis primeiros níveis são considerados níveis de primeira camada, onde todos os níveis são influenciados por uma lógica narcisista: cada nível considera que apenas o seu modo de ver o mundo é o correto. Os dois últimos níveis são os de segunda camada e há um salto significativo de desenvolvimento da primeira camada para a segunda. Na segunda camada as pessoas transcendem o narcisismo e suas consciências passam a operar dentro de uma lógica globocêntrica.

Cada estágio de consciência possui suas próprias características. Isso significa que quando alguém se encontra num determinado nível, sua consciência de si mesmo e do mundo está sob a influência deste nível. Ao encontrar-se em determinado nível a pessoa não consegue compreender profundamente os que estão em níveis diferentes, mesmo que sejam menos desenvolvidos que o seu próprio.

Wilber faz um paralelo entre a cartografia de Graves e os três estágios básicos de desenvolvimento moral que abordamos anteriormente. A partir dessas considerações, vamos analisar o modelo da Dinâmica da Espiral e apontar possibilidades de experiências potencializadoras em cada um dos diferentes níveis. Os memes são identificados por cores, sendo que não há nenhum motivo em especial para associar cada cor com a cada meme além da ludicidade do modelo.

Níveis egocêntricos (Primeira Camada)

O Bege é o primeiro nível de desenvolvimento e se caracteriza por concentrar-se nas experiências de satisfações físicas do corpo e com foco na sobrevivência, seguindo instintos e obedecendo a genética. É um nível tão primitivo que se compara aos animais, por isso mesmo causam pouco impacto no meio-ambiente. A individualidade ainda está se formando.

As atividades característica deste nível é a busca por assegurar a sobrevivência. Saciar a sede, a fome e buscar um lugar seguro para viver são essenciais ao ser humano. A experiência de sentir que suas necessidades básicas estão atendidas permite que o homem possa concentrar sua atenção, força e criatividade em outros projetos (Maslow, 1968).
É um nível de consciência ainda tão primitivo que é característico de bebês pequenos e sociedades muito primitivas. Mesmo em níveis mais desenvolvidos a experiência adquirida neste meme permite que a pessoa se adapte mais rápido em casos onde é necessário garantir a sobrevivência em ambiente hostil.

A pessoa busca compreender o mundo a sua volta no segundo nível, o Roxo, mas por ainda ser um nível pouco desenvolvido suas explicações se restringem a uma visão mítica do mundo. Tendem a formar grupos, clãs e costumes; usam objetos sagrados e criam rituais. O mundo é encantado e mágico, onde devemos buscar harmonia com a natureza.
Por ser um nível ainda precoce as explicações são mágicas e satisfazem o ego. A experiência de encontrar explicações mágicas instiga a imaginação e pode despertar a curiosidade, direcionando este potencial para soluções criativas. Muitas técnicas psicológicas relacionam o momento criativo com um religar-se a criança interior através do lúdico e da expressão em forma artística.

Ao chegar ao nível Vermelho, o terceiro estágio, a pessoa começa a demonstrar a necessidade de mostrar seu eu individual para o mundo, mas por ainda ser um nível inferior o sujeito o faz através da força. Evita ao máximo a vergonha e busca defender a reputação, desejando ser respeitado. Esse eu apresenta desejos que devem ser satisfeitos o mais rápido e intensamente possível, há grande ênfase na satisfação pelo prazer, seja um prazer por coisas que causam alegria ou pelo alívio de algo que incomoda como a raiva.

A imposição de sua visão de mundo pela força mostra o quanto a potência está direcionada para o combate, mas que se não for educada a pessoa pode entrar em disputas desnecessárias e injustas, infringindo os direitos do outro. Por ser o último nível dentro de uma perspectiva egocêntrica o sujeito está mais crescido, mas o nível de maturidade ainda está permeado pela perspectiva de que o mundo deve servir às suas necessidades pessoais.

A pessoa encontra-se forte o suficiente para afirmar-se para si mesma e para o mundo, porém, é necessário controlar esta força e não nos deixar consumir pelos vícios. São as experiências que levam o sujeito a perceber que não está sozinho no mundo e que é importante aprender a ter uma boa convivência em grupo, o que instiga o sujeito a dominar a potência, contendo sua força, e a direcionando para atividades valorizadas pelo grupo.

Níveis Etnocêntricos (Primeira Camada)

O primeiro nível dos estágios etnocêntricos é o Azul. Neste quarto nível de consciência, a pessoa passa a sentir-se fortemente parte de uma comunidade. Ela encontra significados e propósitos para sua própria vida e começa a sacrificar os prazeres imediatos em busca de uma recompensa futura maior. É um nível que traz mais estabilidade para a pessoa, pois a impulsividade está mais controlada e a pessoa passa a conhecer o sentimento de culpa.
Por buscar formas “certas” de viver é comum filiar-se a um grupo que aponta um “grande outro” que dita as regras (um representante da lei ou uma religião, por exemplo). Neste nível aprofunda-se a necessidade de pertencer a um grupo ordenado e justo, valorizando os princípios absolutos do grupo sobre o que é certo ou errado .

As regras sociais são atravessadas pela cultura. Nos damos conta da importância de começar a ouvir o outro e estreitar relações, de cuidar da própria higiene para adequar-se às regras sociais e também para respeitar as regras e rituais do grupo ao qual pertencemos. Percebemos essa lógica se aplicando à sociedade em diferentes tempos, inclusive o nosso tempo atual. Percebemos pessoas que seguem as regras de seus grupos de forma rígida, excluindo e julgando errôneo o jeito dos demais grupos.

Apesar das convicções do nível azul as pessoas não podem evitar entrar em contato com novas perspectivas, principalmente com veículos de informações tão amplas como a televisão, a internet e a facilidade em viajar ao redor do globo. O bombardeio de informações força o sujeito a sair da zona de conforto do pensamento do grupo ao qual pertence. Há regras do pequeno grupo, mas a modernidade força a percepção de que vivemos interconectados.
Ao perceber seu grupo e analisar a perspectiva de outros grupos o sujeito é impelido a novas experiências. Novos questionamentos sobre virtude, valores e regras surgem, fazendo com que o sujeito não aceite mais cegamente as regras do grupo ao qual pertence, é angustiante obedecer sem entender de forma mais profunda o que está acontecendo no grupo e no mundo. É necessário experimentar, encontrar as perspectivas “corretas” e provar ao mundo sua exatidão.

Assim chegamos no Nível Laranja. As pessoas neste meme buscam mais autonomia e independência, almejando a vida boa e a abundância material. Há um foco no progresso através de pesquisas, ciência e tecnologia. Essa perspectiva instiga o sujeito a provar seu ponto de vista. Essas pessoas jogam para ganhar e adoram competições.
Com o avanço das técnicas de registros e uma interação humana a nível mundial cada vez mais comum, esse contexto forçou o homem a pensar de forma ainda mais sistemática. A lógica é apreciada e tudo o que foge a essa lógica é visto com desprezo.

O pensamento socrático que questiona as definições precipitadas e instiga o sujeito a ir além da percepção inicial pelo uso da lógica têm influência até os dias de hoje. A lógica aristotélica influenciou a forma do pensamento newtoniano e várias áreas do saber seguem essa estrutura. Esse nível de consciência é um dos que mais contribuem com os avanços da ciência. Contudo, com as contínuas das descobertas, com a apresentação comprovada da lógica einsteiniana e com os avanços da física quântica, o homem é mais uma vez forçado a sair do conforto de sua forma de pensar e impelido a novas experiências.

A ciência comprova que o mundo é mais conectado do que se imaginava e novas formas de analisar os fenômenos físicos, psíquicos e sociais são essenciais para estruturar essa nova realidade. É neste contexto que o sexto nível, o Verde, emerge. Ele explora com mais intensidade seu próprio ser e busca compreender com mais profundidade as outras pessoas. Acredita e promove um senso de comunidade e unidade, buscando dividir os recursos da sociedade entre todas as pessoas. Há um outro movimento entre os grupos, as pessoas deste nível não se apegam a ganância e nem se submetem a dogmas.

Este é o nível mais desenvolvido de primeira camada, mas ainda assim está na lógica do estágio de consciência etnocêntrico. Vale lembrar que por ainda estarmos em níveis de primeira camada, cada nível de consciência ainda defende seu próprio ponto de vista. Neste nível, porém, a pessoa já começa a pensar de forma integradora, buscando compreender o outro e saber o que é preciso ser feito para viver em harmonia. Perceber e pensar nessa integração é um salto fantástico, mas as pessoas neste nível de consciência ainda não conseguem agir dessa forma. É o que Wilber chama de “boomerite”, um postura pluralista infectada de narcisismo.

Há registros na filosofia e nas tradições religiosas de perspectivas mais evoluídas da consciência. O nível verde consegue entender de forma cada vez mais profunda essas perspectivas, mas sente uma grande dificuldade de agir de acordo com aquilo que compreende. Ele entende intelectualmente as virtudes, deseja-se alcançar essa forma de viver e as promessas de felicidade advindas desse conhecimento, mas por não conseguirem tornar essa postura uma série de comportamentos espontâneos, de acordo com esses conhecimentos integradores, não se pode considerar que essa pessoa está num estágio de desenvolvimento globocêntrico.

Podemos citar como um exemplo dessa lógica boomerite a reciclagem. Sabemos que o planeta já não aguenta tantas investidas em seus recursos naturais; sabemos que precisamos reciclar e reutilizar certos materiais para manter um equilíbrio com os recursos naturais; sabemos quais são os materiais que devem ser separados para a reciclagem… sabemos muito. No entanto, muito pouco é reciclado em todo o planeta. Muitas pessoas sabem de tudo isso, mas ainda não separam o lixo para a reciclagem. Essa informação está disponível para todo o mundo e o alerta com relação aos recursos escassos do planeta não são dados novos. Mesmo assim ainda é pequena a estrutura de reciclagem disponível e tanto muitos governos não investem nessa área, quanto a sociedade de forma geral ainda cobra pouco com relação a essa questão. Sabemos, mas são poucos os exemplos daqueles que conseguiram estruturar a si mesmos e suas cidades para uma postura globocêntrica com relação ao lixo produzido. E isso é apenas um exemplo da lógica do meme verde. Ele sabe o que fazer… mas não faz.

Neste nível a importância do exercício das virtudes se torna crucial. Ao praticar as virtudes no dia a dia o sujeito experimenta novas vivências e aprofunda cada vez mais no autoconhecimento. Quando a angústia de não ser aquilo que o sujeito sente que nasceu para ser, que ainda não alcançou seu máximo potencial, quando o desejo intenso de se tornar um ser mais evoluído e harmônico no que tange seu conhecimento, suas emoções e sua relação com o mundo… essa condição o leva ao limite dos estágios de primeira camada. Ele transcende para a segunda camada, para posturas globocêntrica autênticas.