Experiências Psicologia

Homem Almar Parte 2 – As Experiências

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

O meu direcionamento para os estudos sobre experiência especificamente começaram no mestrado. O texto que mais me influenciou neste aspecto foi um artigo escrito pelo educador Larrosa (e você pode ler ele na íntegra clicando aqui ) e as próximas palavras são um recorte da minha dissertação de mestrado (disponível aqui ). O objetivo é esclarecer oq ue estou chamando de experiência para que compreendam melhor o sentido de Almar. É um texto gostoso de ler e espero que apreciem e se surpreendam, como me surpreendi ao ler pela primeira vez os sentidos dessas palavras.

Quando pensamos sobre o que é experiência, acabamos por encontrar nossas próprias experiências como referencial. Chamamos de experiências de vida, aprendizados, lembranças… mas o que é experiência? Nos escritos de Larrosa encontramos uma importante reflexão a este respeito e o porquê de elas estarem tão raras atualmente.
A origem da palavra experiência vem do latim “experiri”, que significa provar ou experimentar. Desta forma, a experiência é em primeiro lugar algo que se experimenta, que se prova. O radical “periri” está relacionado à ideia de travessia, o percorrido, a passagem, ir até o fim, ao limite e também de prova (no sentido de provar/experimentar), além de reportar um sentido de periculum ou perigo.
A complexidade do sentido da palavra experiência se reflete na vivência da própria experiência. Precisamos nos expor para experimentar e ir ao encontro do que está exterior a nós mesmos, correndo o perigo de sermos atravessados por essa exploração. Se nos submetemos ao exílio, o novo risco é o de conhecer as periferias do nosso próprio ser. Viver é uma peripécia onde estamos sempre nos expandindo, como expectadores de uma expedição que exige perícia e pode provocar grandes expectativas de viver cada vez mais e melhor nossa própria vida!
Essa tempestuosa busca por experimentar-se provoca mudanças no sujeito. Larrosa explica que a palavra “experiência” indica o que nos passa, nos acontece, o que nos chega e o que nos toca. A experiência implica uma vivência consciente e não apenas uma observação imparcial do que se passa, do que está acontecendo ou do que toca. Assim, só podemos chamar de experiência aquilo que nos ajuda a tornarmo-nos peritos sobre a nossa própria história.
A desconexão é a falta de experiências que provocam essa condição de atravessamento do sujeito. A autenticidade da presença está dando lugar a um expectador dormente, ausente e superficial. Por perceber essa condição, Larrosa buscou compreender o porquê de as experiências serem tão raras na contemporaneidade, encontrando quatro elementos que sustentam essa observação.
O primeiro desses elementos é o excesso de informação. Dispomos hoje de um volume de informação muito maior, sabemos de coisas que antes não sabíamos e o acesso a essas informações também está cada vez mais fácil. Apesar de tudo ao qual fomos informados, nada nos sucedeu ou nos tocou a ponto de internalizarmos uma aprendizagem efetiva e significativa (Larrosa, 2014). Estamos apenas juntando informações e não nos transformando e nos aprimorando a partir delas. Conhecer não pode ser reduzido ao ato de informar-se e a aprendizagem não pode se reduzir a adquirir e processar a informação.
Percebam que informação é diferente de educação. Os gregos, no período clássico, alfabetizavam seus alunos apenas por volta dos quinze anos de idade. Era preciso que primeiramente os jovens aprendessem a pensar por si mesmos, se jogarem num mundo de experiências e refletir sobre o vivido. Acreditavam que ler e escrever precocemente colocaria em risco o pleno desenvolvimento criativo do jovem, pois a forma pueril de pensar desses jovens poderia ser facilmente corrompida, sujeitando-se a um pensamento pronto e, com isso, o jovem nunca descobriria de forma plena sua própria forma de pensar. Não podemos pensar na experiência apenas de forma empírica, ela deve ser um movimento de contato com o exterior e também com o interior.
O segundo ponto que justifica a raridade da vivência das experiências é o excesso de opinião. A opinião se tornou um imperativo tanto quanto a informação, e a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência. O par informação/opinião permeia nossa ideia de aprendizagem. Primeiro nos informamos, depois manifestamos nossa reação subjetiva a essa informação. Infelizmente esse processo tem sido tão automático que quase sempre se reduz a estar a favor ou contra essa informação. Sem uma reflexão e uma aprendizagem significativa sobre a informação não podemos evocar insights que nos conduzam ao autodesenvolvimento. A opinião é breve e superficial. Para compreender a fundo as experiências é necessário um pensamento verdadeiramente reflexivo.
O terceiro motivo para a falta de experiências na contemporaneidade é o fator tempo como impeditivo das experiências, não o tempo em si, mas a falta dele. Este é um efeito relacionado com o excesso de opiniões, cedemos a essas opiniões como uma forma de lidar mais rapidamente com o que quer que aconteça a nós… tudo isso por parecer que o tempo está sempre se esgotando. Nossos dias estão permeados pela pressa, pela excitação fugaz e efêmera, pela vivência instantânea, pontual e fragmentada; pela velocidade e pelo novo, porém, nada nos acontece realmente (Larrosa, 2014).
Essas obsessões modernas de produtividade impedem a construção de memórias significativas. Nos falta hoje o silêncio para processar o acontecido. Se não tivermos tempo para dialogar com pessoas, estar em contato com a natureza, a arte, nós mesmos, acessar nossas potencialidades e usá-las para criar, corremos o risco de nos cristalizarmos com relação ao nosso próprio desenvolvimento.
É no tempo livre que o sujeito pode estar em contato pleno com sua autonomia, recriando a si mesmo e ao mundo, porém, as necessidades econômicas e existenciais que a sociedade moderna traz em forma de valores culturais e costumes adoece o homem contemporâneo. Quando as pessoas são colocadas numa situação em que o trabalho sufoca várias áreas da sua vida, acaba por despertar um desejo de liberdade para deixar aflorar seu próprio ser (Aquino & Martins, 2007); no entanto, se esse eu potente não pode ser encontrado, manifestado e recriado nesse contexto acabamos num fluxo que mantém nossa sociedade adoecida.
Essa falta de tempo para viver está intimamente ligada com o excesso de trabalho imposto ao homem contemporâneo e por isso esse aspecto de nossa atual sociedade é o quarto fator para a ausência da experiência. O excesso de trabalho tem tornado cada vez mais rara a experiência. Muitas vezes associamos grande tempo de trabalho (de horas e anos) a pessoas com muita experiência, pois acredita-se que é através do trabalho e da prática que adquirimos o saber. Esses dois conceitos devem ser analisados de forma separada, pois a experiência não pode ser reduzida a uma contagem de créditos ou a uma mercadoria.
O sujeito moderno está atravessado por um afã de mudar as coisas, tão cheio de vontade e hiperativo que vê no trabalho uma forma otimista de progressismo que o levará a poder fazer tudo o que se propõe e não admite que algum obstáculo possa pará-lo. Sua relação com os acontecimentos são todas do ponto de vista da ação (Larrosa, 2014). Se pararmos, nada nos acontece. Nos esvaziamos da intuição do que fazer quando estamos na companhia de nós mesmos, mas se estivermos abertos à experiência autêntica e transformadora, descobrimos que tudo pode acontecer.
A experiência requer interrupção, parar e pensar, olhar, escutar. É fazer tudo isso mais uma vez e outra, agora mais lentamente e apreciando ainda mais. Isso tudo para melhor sentir e nos conscientizarmos dos detalhes. Nesse momento da vivência, devemos despirmo-nos das opiniões, de juízos e do automatismo, dando lugar à atenção e a delicadeza de vivenciar o momento com todos os sentidos.
Pensar no conceito das experiências e refletir sobre a escassez dessas experiências em tempos hodiernos nos dá um panorama sobre a questão, mas ainda encontramos um problema que não é possível resolver: a experiência é algo inefável, ou seja, não podemos descrevê-la completamente através de palavras. Posso descrever a linda queima de fogos na praia durante a virada de ano novo, sobre as belezas de fazer um mergulho no mar ou de como foi maravilhoso ver e ouvir uma apresentação de dança com música que considero magnífica; no entanto, você precisaria passar pela experiência e ser atravessado por ela para compreender essas narrativas em toda a sua vivacidade.
Assim, como aponta Larrosa (2014), o termo experiência “é o espaço onde têm lugar os acontecimentos”. A experiência é vivida pelo sujeito que a está experimentando, tornando-a intransferível. Este sujeito da experiência se define por sua receptividade, abertura e disponibilidade. É necessário presença, um momento de passividade apaixonada, paciente, de atenção e de entrega. O sujeito que entra nesse lugar fica exposto e vulnerável a todos os riscos da experiência.
Quando se expõe, o sujeito da experiência é alcançado, tombado e derrubado. Ele deixa de estar seguro sobre sua visão de mundo e submete-se a este sofrimento de forma receptiva, aceitante e submetido às possibilidades que virão numa reorganização de si mesmo após a experiência. São nas experiências que residem às possibilidades de nos formarmos e de nos transformarmos e é por isso mesmo que somente o sujeito da experiência é quem está aberto à sua própria transformação.
A experiência sai da lógica da ação. Ela está em uma lógica de paixão. O sujeito passional assume os padecimentos como um viver ou experimentar, adotando uma forma de viver que o leva à uma liberdade que depende apenas da paixão profunda por sua autenticidade. Ele não possui o objeto amado, no entanto é possuído por ele. Na verdade, o que ele realmente ama é precisamente sua própria paixão, ou seja, a sensação única da própria experiência (Larrosa, 2014). É através das paixões pela experiência que o sujeito passa pela transcendência, uma oportunidade única de morrer a velha condição numa vivência apaixonada, condição para renascer mais próximo do homem obra de arte idealizado pelos gregos.
São variadas as disciplinas que abordam o desenvolvimento do homem. Esse impulso para o transcendente, essa potência latente que habita em todos nós está constantemente nos instigando a experienciarmo-nos no mundo. A forma como essas experiências são acessadas e interpretadas varia de pessoa para pessoa e nos parece que o fator principal de influência dessa forma de ver-se na experiência se dá pelo nível de desenvolvimento de consciência de cada um.

Ps. Foto retirada durante uma trilha na serra de Aratuba, localizada na minha terrinha, no Ceará. Essa trilha ainda vai render alguns textos, mas essas são experiências para um outro momento…

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