Psicologia

Homem Almar Parte 3 – Níveis de Consciência: Do Egocêntrico ao Globocêntrico

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

Esse texto é um recorte da minha Dissertação de Mestrado e saber sobre os níveis de desenvolvimento de consciência foi um dos fatores que mais me motivaram a começar o Homem almar. O que acha de sair dos estágios egocêntricos para o globocêntrico? É um pouco de psicologia, de teoria e sou suspeita em dizer que é um tema fantástico para nos provocar reflexões de auto-conhecimento

Durante a experiência, nossa consciência assume estados variados. Temos experiências muito específicas no estado de sonho, por exemplo e a ciência vem estudando tipos específicos de experiências como as experiências ótimas ou de fluxo discutidas por Csikszentmihalyi, e as experiências de Pico estudadas por Maslow. Esses Estados de Consciência implicam de forma direta na interpretação subjetiva da realidade. Esse estado está alicerçado num background diferente: o nível ou estágio de desenvolvimento que a pessoa se encontra. Aqui identificamos uma das influências mais notáveis na interpretação da Experiência.
Existem dezenas de modelos que ilustram o desenvolvimento da consciência. Alguns desses modelos são mais simples por apresentarem poucos níveis de desenvolvimento, enquanto outros são bastante complexos por apresentarem mais de cem diferentes níveis. Para uma percepção melhor de como somos influenciados por esses níveis, vamos examinar um modelo de desenvolvimento de consciência de três níveis e com foco no desenvolvimento moral.
Ao começar a pensar em estágios de desenvolvimento é importante sabermos que a sequência de estágios é hierárquica com relação à sua complexidade e também invariante na medida em que um estágio menos desenvolvido é alicerce para o mais complexo. Cada estágio possui sua própria filosofia moral, ou seja, cada nível tem sua própria forma de analisar e resolver um conflito moral, sua própria forma de ver o mundo. As pessoas tendem a seguir essa linha de desenvolvimento ao longo de sua vida, mas podem acabar fixando-se em um estágio específico. Não há possibilidades de pular estágios, como sair do primeiro para o terceiro, mas em alguns casos excepcionais é possível regredir. Caso a psique dessa pessoa tenha condições de avançar para estágios mais desenvolvidos, porém, se a pessoa, por algum motivo, se fixa em um dos estágios, essa cristalização pode gerar problemas psicológicos.
O primeiro nível, o Pré-convencional/Egoísmo/Egocêntrico, é um estágio primário, onde as regras externas ao eu ainda não foram incorporadas, elas são vistas como imposições e a pessoa sente-se como um súdito e não como cidadão. Há uma incapacidade de elaborar um ponto de vista compartilhado ou social, extraindo seus construtos morais de necessidades individuais.
No primeiro estágio do desenvolvimento algumas pessoas podem compreender errônea e precipitadamente que se refere a pessoas egoístas. Quando se fala em egoísmo nos referimos às pessoas que não querem dividir e ambicionam obter somente para si mesmo o que outros possuem. É diferente no egocentrismo, pois o eu não se diferencia do mundo. O ego é o centro do mundo, como se todos estivessem ali para servi-lo com o intuito de garantir sua sobrevivência e bem-estar.
Características egocêntricas são comuns em crianças, pois o mundo que é composto de parentes, família e escola são os que criam uma estrutura para satisfazer todas as necessidades da criança. O eu ainda se confunde com o próprio mundo por conta da forma primitiva que a intelectualidade atua no sujeito. Quando uma criança deseja comida por se encontrar com fome, em pouco tempo alguém aparece com comida. Inicialmente sua interpretação é de que o mundo tinha obrigação de atender ao desconforto da fome e eliminá-lo. Aos poucos seu intelecto vai se desenvolvendo e ela vai percebendo que não foi alimentada apenas por ter desejado, mas por que socialmente há uma regra de que no horário que corresponde ao almoço às pessoas devem se alimentar, pois biologicamente nosso corpo demanda comida periodicamente.
A característica egocêntrica é natural da criança e seguir o desenvolvimento para os próximos níveis também. A criança vai acumulando em sua memória lembranças de experiências vividas e guarda as estratégias para reproduzir novamente as experiências em que se viu potente e evita aquelas que a fez sentir-se despotente. Nesse processo ela também vai tornando consciente para ela mesma suas preferências com relação ao mundo, afirmando sua identidade e a partir disso busca os caminhos que proporcionam maior potência, bem como evita aqueles que a despotencializa.
Na transição deste primeiro nível para o próximo, a pessoa sai do egoísmo para uma conduta mais responsável enquanto ator social. No estágio convencional/Amor/Etnocêntrico as pessoas passam a se perceber como membro em uma sociedade e também a se identificar com as expectativas dos outros. Há uma tomada de consciência das regras e também sua internalização, passando a respeitá-las. As regras são vistas como uma forma de estabelecer relações de cooperação, onde norma de valores compartilhados sustentam relacionamentos, grupos e sociedades.
O eu ganha uma nova concepção, de que pode começar a “fazer as coisas certas”, enxergando em si mesmo o potencial para ser bom e, por isso mesmo, digno de inclusão social. A pessoa torna-se um membro da sociedade mediante à adoção de valores sociais e, o julgamento consensual sobre questões como o que é bom são de extrema importância, pois a sobrevivência passa a ser vista como uma dependência da aceitação do outro (Gilligan, 1982).
Este é o amadurecimento necessário para que o sujeito comece a compreender a questão das virtudes e agir em prol deste novo conhecimento. Exemplos de grupos com pensamentos específicos encontramos nos gregos quando trouxeram a questão ética do caminho do herói; a influência judaico-cristã aponta para o caminho da beatitude; a psicologia se apropria dessas questões e transforma o conteúdo em pesquisas com apresentação em linguagem científica. Vários caminhos para o desenvolvimento, cada um com a sua própria visão.
Quando a pessoa passa para este segundo estágio, ela deixa sua postura infantil e passa a ver um eu independente que faz parte de grupos. Inicialmente seu mundo reduzia-se ao seu grupo familiar e, ao longo de sua história, vai se expandindo: faço parte da escola que frequento, do grupo de amigos que gostam de determinados costumes e de uma sociedade que se localiza em determinada cidade, estado ou país. Ao incluir-se num grupo e não em outro, certas características de visão de homem e mundo constroem a forma como essa pessoa interpreta a realidade, acabando por rejeitar a forma como outros grupos interpretam o mundo se estas não estiverem de acordo com suas próprias ideias.
Esse contato com diferentes pessoas, com grupos e sua participação nestes, as pessoas ampliam seus repertórios de experiências. Dentro das regras do grupo que a pessoa se encontra podemos apontar experiências que são rodeadas de expectativas do grupo, como quando desejam que seus integrantes passem por rituais como o batizado, o casamento e a formatura numa instituição educacional. Ao tornar-se parte de um grupo algumas experiências podem ser vistas como mais potentes pelo valor que aquela sociedade atribui ao tipo de experiência, no entanto, não podemos esquecer que aquele que está vivendo a experiência também está sob a influência de seu estado de consciência.
Os estudos apontam que um dos problemas deste estágio intermediário é que a arquitetura dos pressupostos sociais gera estereótipos. Ao acatar esses pressupostos, conflitos pessoais podem surgir entre as responsabilidades e o sacrifício das necessidades. É necessário esclarecer um meio termo em que todos possam sair felizes, mas isso nem sempre é possível.
Esses conflitos vão colocando as pessoas em situações que as provocam a sair de seus próprios grupos e passem a ter contato com a visão de outros. Podemos fazer uma relação com o que Espinosa (2013) salienta sobre a importância da relação humana para o desenvolvimento. Com o acúmulo de experiências intra-humanas e também com a natureza novas aprendizagens são adquiridas e geram maior flexibilidade, possibilitando assim que a pessoa passe a ver a si mesmo como parte de um grande grupo. É isso que se concretiza no terceiro nível de desenvolvimento.
No terceiro nível, o nível pós-convencional/Amor Universal/Globocêntrico a defesa da vida e da dignidade humana são valores intrínsecos e as decisões buscam o bem-estar geral e pautam-se em princípios éticos como o da justiça. Destaca-se aqui o universalismo ético, propondo que esses princípios são universalizáveis em função da trajetória universal da psicogênese da moralidade e não por serem universalmente observados (Venturi, 1995).
Neste estágio mais complexo, a pessoa sai da rigidez das regras sociais e começa a desenvolver princípios éticos próprios inspirados por ideais. Esse movimento acaba por gerar princípios morais que se inspiram numa aplicação universal. O ego cede lugar a um novo eu consciente de que faz parte não somente de um grupo ou de alguns grupos, mas de uma grande sociedade.
Este estágio permite que o sujeito veja e se relacione com o mundo de uma forma global. Neste nível, as linhas que separavam o eu e seu grupo dos outros grupos é dissolvida e nasce a percepção de que se vive em uma grande comunidade que se localiza no planeta terra. Todos os seres viventes desse planeta devem ser tratados com respeito e de forma que possam coexistir harmonicamente. Surge à consciência a percepção de que algo que um ser faz tem impacto global, pois todos nos conectamos por uma grande teia que liga todas as pessoas a tudo o que existe e, por conta dessa conexão, tudo o que fizermos gera um impacto direto no mundo e em sua organização.
Neste nível de desenvolvimento a consciência está mais aberta a experiências mais sutis. Sua conexão com o mundo como um todo amplia sua percepção de possibilidades de experiências potentes em cada lugar e oportunidade. Por ver a si mesmo como parte de um todo deixa-se estar vulnerável para a experiência, mais aberto para sentir-se parte do todo e perceber as mudanças que ocorrem em si e desejando que boas mudanças aconteçam no mundo todo.
Nesses três estágios é possível perceber distintas formas de ver o mundo, esclarecendo o quanto é significativa a mudança que ocorre no ser humano quando este muda de um estágio de desenvolvimento para outro. A partir de uma cartografia de consciência mais detalhada, com muitos níveis, as mudanças são mais sutis. Quanto mais diversificada é uma cartografia, mais sutil será a compreensão da mudança de um nível para outro.
Ao abordarmos os estágios de desenvolvimento moral dessas três propostas foi possível perceber o impacto das mudanças de níveis de consciência e, o próximo passo, é perceber as sutilezas desse desenvolvimento. Diferentes níveis geram diferentes visões de homem e mundo, o que pode tornar algumas práticas e experiências mais potencializadoras do que outras. É essa compreensão mais aguçada que a teoria da dinâmica da Espiral de Graves tem a oferecer e este será o tema do nosso próximo texto.

Ps. Essa foto foi feita em um Ashram aqui no Ceará. Lindo demais esse espaço, memórias incríveis… escolhi essa imagem pois a flor de Lótus é considerado um dos símbolos mais representativos de uma consciência globocêntrica, de desenvolvimento máximo.

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